Adivinha quem vem jantar (1967)

17:51

interpretaçõesSidney Poitier, Katharine Houghton, Spencer Tracy, Katharine Hepburn 
DIRECTORStanley Kramer | ano: 1967 | nota7,4   

Para finalizar o mês aqui estou eu com a opinião do primeiro filme que eu e a Chris vimos para o nosso projecto conjunto - Pipocas | Óscares | Acção. Para quem não se lembra, este projecto consiste em todos os meses eu e a Chris escolhermos à sorte um ano entre 1934 e 2009; seguidamente ver quais os filmes que foram nomeados para Melhor Filme nesse ano e escolher um que nos agrada e que nenhuma de nós viu. Para Janeiro o ano sorteado foi 1968 e acabamos por escolher o Adivinha quem vem jantar, um drama que se debruça sobre um relacionamento interracial. 

No ano de 1968 celebrou-se a 40ª edição dos Óscares, referente aos filmes de 1967, e foram cinco os nomeados para Melhor Filme. 
Um deles foi o filme Bonnie e Clyde que retratou o famoso duo de assaltantes de bancos, interpretados aqui por Warren Beatty e Faye Dunaway. Foi um filme que na altura foi muito controverso (alguns odiaram, outros amaram) e foi sobretudo criticado pela sua violência gráfica; hoje em dia é considerado um grande filme. Este foi um que já vi há muitos anos atrás e que gostei na altura; preciso de rever. 
Outro filme nomeado foi o A primeira noite (The graduate) com Dustin Hoffman e Anne Bancroft; conta a história de um recém formado que é seduzido por uma mulher mais velha. Este, sem dúvida, que se tornou um filme extremamente bem difundido na cultura popular...quem não conhece a famosa frase "Mrs. Robinson, you're trying to seduce me. Aren't you?". Foi extremamente bem recebido nas bilheteiras na altura e continua a ser um filme bastante popular. Este é, sem dúvida, um filme que eu recomendo muito nem que seja pela cena final e excelente banda sonora de Simon & Garfunkel.


Depois temos o único filme que eu nunca vi da lista: o musical Doctor Dolittle com Rex Harrison. Este foi um daqueles filmes que não fez muito sucesso na altura (foi nomeado graças a pressão do estúdio) e ninguém se lembra dele actualmente. Acho que é mais conhecida a comédia mais recente com o Eddie Murphy.
Para finalizar temos o grande vencedor do prémio desse ano: o drama de mistério No calor da noite (In the heat of the night). Este foi um filme que eu vi o ano passado e gostei muito. Curiosamente, também aborda o tema do racismo e conta com Sidney Poitier no papel principal. Este conta-nos a história de um polícia negro que, sem querer, se vê envolvido numa investigação de assassinato numa pequena terra racista do sul da América. O filme vale sobretudo pela sua mensagem e pela excelente química e actuações de Sidney Poitier e Rod Steiger (que venceu o Óscar de Melhor Actor).


Passando agora ao filme escolhido, Adivinha quem vem jantar é um drama que apresenta, de um ponto de vista positivo e raro na altura, a relação entre um homem negro e uma mulher branca.

Realizado nos anos 60 por Stanley Kramer, em plena luta dos negros norte-americanos pelos seus direitos cívicos, conta a história de um casal branco (Katharine Hepburn e Spencer Tracy) a quem a filha anuncia que vai casar com um negro. O noivo (Sidney Poitier) é médico e vive na Suíça, mas apesar deste cartão de visita, os pais da rapariga entram em choque.

Eu ia com as altas expectativas para este filme tendo em conta a temática e a participação de dois actores que eu sabia serem óptimos actores: Sidney Poitier e Katharine Hepburn. Felizmente, o filme foi de encontro às minhas expectativas.
Essencialmente, a história do filme gira em torno das reacções das famílias dos dois apaixonados quando eles anunciam, de repente, que vão casar após se terem conhecido há cerca de 20 dias atrás. O final e resolução da história acabam por culminar no famoso jantar do título do filme entre as duas famílias. 


Vou começar então pela abordagem da temática principal do filme. Na altura, em plenos anos 60, o casamento interracial ainda era tabu para a maioria dos americanos e só recentemente tinha sido legalizado em todos os Estados do país. Sendo assim, era um tópico delicado e bastante pertinente que foi muito bem abordado no filme.
É interessante ver a forma como os vários elementos das famílias reagem à notícia. Todos inicialmente ficam em choque mas depois acabam por reagir de forma diferente. Temos as mães que, no fundo, acabam por ser as mais emocionais e sentimentais e temos os pais que são mais racionais, focando-se mais no seu preconceito ou nos problemas que sabem que os seus filhos terão de lidar ao ir para a frente com uma relação assim. 


O filme gira muito em torno da reacção dos pais da rapariga (Katharine Hepburn e Spencer Tracy) mostrando que até eles que sempre ensinaram à filha que todos são iguais e que são consideradas pessoas muito liberais têm dificuldades em aceitar o relacionamento da filha. Achei isto muito pertinente porque muitas vezes as pessoas apregoam ideais que depois acabam por ignorar quando o caso se torna pessoal. 
O filme também se foca muito no contraste entre o casal...se por um lado temos a personagem da Katharine Houghton que é uma pessoa extremamente alegre e despreocupada que não vê qualquer problema na situação e que quer apenas seguir o seu coração, temos por outro a personagem do Sidney Poitier que é mais velha e cautelosa e que se preocupa muito com a reacção das famílias. 
Sendo assim, temos uma diversidade grande de reacções e pontos de vista que enriquecem o filme. 


Um dos pontos mais positivos do filme é a qualidade de praticamente todas as interpretações
A maior surpresa de todas foi mesmo a interpretação de Spencer Tracy. Eu já conhecia o actor de nome pois a sua relação amorosa com a Katharine Hepburn é bastante conhecida; apesar do actor ser casado com outra mulher eles foram companheiros/amantes durante cerca de 25 anos. No entanto, este foi o primeiro filme que vi com o actor e adorei a sua interpretação; penso, sem dúvida, que é a melhor interpretação do filme. A química entre ele e a Katharine é palpável e o discurso final da personagem é bastante emotivo, não só pela mensagem em si mas também pelas circunstâncias reais em que decorreram. Foi o último filme do actor, que já estava doente na altura e que acabou por falecer antes do filme estrear, e é visível que as emoções e olhares trocados entre os actores são bastante reais.


Hepburn está óptima como sempre e Katharine Houghton surpreendeu pela sua vitalidade. Poitier convence sempre com a sua presença e carisma e, gostei sobretudo, de uma cena dramática e tensa que ele tem com o seu pai.


Para mim, o maior contra do filme é que ele acaba por se tornar um pouco repetitivo e arrastado uma vez que todo o filme é a exploração das reacções à notícia no espaço de um único dia. Outros pontos que não gostei tanto foi um cena de dança totalmente desnecessária que aparece pelo meio do filme e a interpretação da criada.

É assim um clássico que, não sendo extraordinário, é bastante sólido e que recomendo sobretudo pelas brilhantes interpretações e pela mensagem, que embora não tão aparentemente necessária hoje em dia, nunca é demais apresentar. É verdade que actualmente uma relação interracial já não devia ser motivo para tabu (e já não tem o impacto que tem no filme) mas infelizmente ainda existem muitas pessoas preconceituosas neste mundo.




E vocês? Já viram este filme ou algum dos nomeados de 1967?

Opinião da Chris aqui

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